quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

DE OLHO NA GRAMÁTICA NORMATIVA

1º CASO:
Todo o mundo conhece este assunto:


Quando omitir ou não o artigo definido junto ao pronome "todo"?por Sérgio Simka*
A gramática estabelece uma distinção de sentido entre TODO e TODO O, TODA e TODA A. A diferença semântica reside justamente no uso e na omis são do artigo. Assim, atribui-se a TODO o significado de "qualquer" e a TODO O a significação de "inteiro".
Nas frases seguintes, a diferença é clara: Lia todo livro que encontrasse. Li todo o livro.
No primeiro caso, o pronome indefinido TODO + substantivo traz a ideia de "qualquer", "cada", por isso o sentido é o de que o cidadão lia "qualquer" livro que encontrasse. Por exemplo, a frase "Todo ser humano tem alma" representa o conjunto dos seres em questão, daí podermos dizer que o uso do singular (TODO = qualquer) tem valor de plural (TODO = totalidade), o que Bechara chama de "totalidade distributivamente de um conjunto plural".
No segundo caso, o adjetivo TODO + O + substantivo tem o sentido de "inteiro", "completo"; assim, o sujeito leu o livro "inteiro". Está implicada uma ideia de integralidade, daí o artigo ser obrigatório.
Todo o mundo/ todo mundo Sem o artigo, "todo" significa "as pessoas em geral":
Todo mundo ficou perplexo com a atitude do professor. Com o artigo, "todo o" quer dizer " todas as pessoas", "o mundo inteiro": O lixo é um grave problema em todo o mundo.
Particularidades
Vejamos, agora, alguns casos particulares:
O pronome indefinido no plural (TODOS) será usado sem o artigo quando um numeral substantivo antecedê-lo. Analise os exemplos:
 Todos três foram embora quando eu cheguei. "Era belo de verem-se todos cinco em redor da criança." (Camilo Castelo Branco, O bem e o mal).
Se o numeral vier seguido de substantivo, o artigo é obrigatório:
 Todos os três deputados eram casados.
O pronome indefinido será usado também sem o artigo quando houver um nome em função predicativa:
 Tinha dois filhos, todos professores. (= todos eram professores)
Usamos todo como advérbio, quando tiver o sentido de completamente. No entanto, será flexionado como se fosse adjetivo, ou seja, em gênero e número:
 A roupa estava toda manchada. Os senadores caminhavam todos felizes.
* Sérgio Simka é professor e coordenador do curso de letras das Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP), de Ribeirão Pires-SP, e da Universidade do Grande ABC (UniABC), de Santo André-SP. Autor de Português não é um bicho-de-sete-cabeças (Ciência Moderna), dentre dezenas de livros sobre a Língua Portuguesa.
Seu site:
http://www.sergiosimka.com/

2º CASO:

Hipálage
Uma palavra no lugar de outra


Há uma construção sintática que, às vezes, parece o samba do crioulo doido. É a hipálage.por José Augusto Carvalho*
Os dicionários definem hipálage como um expediente retórico segundo o qual uma palavra ocupa numa frase o lugar que convém logicamente a outra que com ela mantém um vínculo semântico e gramatical. Por exemplo: ao falar, em Os Lusíadas X, 2, em "abundantes mesas de altos manjares", Camões quer dizer, retoricamente, "abundantes manjares de altas mesas". Quando fala em "apetite necrófago da mosca", Augusto dos Anjos, no poema "Cismas do destino", parte II, quer dizer que a mosca é que é necrófaga, e não o apetite. No Hino Nacional, há um verso que diz "ao som do mar e à luz do céu profundo". Na verdade, não é o céu que é profundo, mas o mar. Afinal, a profundidade é a verticalidade para baixo (o mar) e não para cima (o céu). O autor desse verso, Osório Duque Estrada, realizou uma hipálage: o adjetivo que deveria determinar um substantivo acabou determinando outro.


A HIPÁLAGE NA LITERATURA
A hipálage ocorre com frequência na prosa impressionista, influência do movimento da pintura surgido na França, em 1874. Em Portugal, Eça de Queirós foi um dos maiores representantes do movimento, inspirado sobretudo em Flaubert, criando construções como "Uma alvura de saia moveu-se no escuro" ("Os Maias", Eça de Queirós), em vez da expressão "Alguém com uma saia branca moveu-se no escuro".
Eça de Queirós tem muitas adjetivações formadas por hipálage, como nevoeiros moles, neve silenciosa, multidões doentias dos pinheiros, choupos desfalecidos, um peixe austero.
(Fonte: Dicionário eletrônico de termos literários, Carlos Ceia)
A produção da hipálage
hipálageEm seu Dicionário de Termos Literários, lançado pela editora Cultrix, Massaud Moisés define hipálage da seguinte maneira:
"Constitui um expediente retórico segundo o qual um determinante (artigo, adjetivo, complemento nominal) troca o lugar que logicamente ocuparia junto de um determinado (substantivo) para associar-se a um outro. (...) Recurso empregado com freqüência desde o Romantismo, em razão "de um agudo subjetivismo irracional, que traz consigo um novo modo de entender o mundo e, sobretudo, o mundo humano (Bousoño 1970)".
A hipálage é um processo psíquico, como a sinestesia, que é a correspondência entre sentidos ou sensações diferentes. "Música doce", por exemplo, é uma sinestesia em que a sensação acústica - música - se associa a uma sensação gustativa - doce. É por sinestesia que falamos em "voz grossa" ou que atribuímos ideia de coisa "gorda" a uma palavra como "maluma", ou damos cores (verbocromia) a determinados sons, como o negrume ao "u" (fúnebre, túmulo, catacumba, urubu) e a clareza ao "a" (claro, raro). A hipálage, no entanto, é mais complexa que a correspondência sinestésica de sensações, e não raro diz respeito à sintaxe e não apenas à semântica. É por hipálage que dizemos que o sapato não entra no pé (na verdade, é o pé que não entra no sapato). Também por hipálage, a moça que engordou diz que determinado vestido não cabe mais nela (na verdade, é ela que não cabe mais no vestido).
Não é apenas o deslocamento de um nome ou de um verbo que produz a hipálage; a permuta de casos e de funções sintáticas também pode caracterizá-la. Assim, uma expressão aparentemente errada, como "dar a luz a uma criança" (por "dar à luz uma criança") pode ser adequadamente justificada como uma hipálage popular. Tanto faz, portanto, dizer que o bebê foi dado à luz, quanto dizer que a luz foi dada ao bebê... A preferência que as gramáticas dão a uma das expressões ("dar à luz um bebê") não justifica a condenação da outra ("dar a luz a um bebê").
Não se confunda o uso de verbos causativos com a hipálage. Quando se diz que "cigarro emagrece", o verbo "emagrecer" está no sentido causativo, registrado nos dicionários, isto é, "emagrece" significa não apenas "fica mais magro", mas também "faz emagrecer". Da mesma forma, em "massas engordam", "engordam" significa "fazem engordar".
Há exemplos "carnavalescos" de hipálage na sintaxe popular, observáveis até mesmo na fala de pessoas cultas. Quando diz que "meu carro furou o pneu", o falante não quer dizer que seu carro tenha realmente furado o próprio pneu... Quando dizemos que "Pedro quebrou o braço ao cair", não estamos querendo dizer que Pedro foi o autor da própria fratura. Quando se diz que "o tanque vazou o óleo todo", não se quer dizer que foi o tanque o autor da façanha. Outros exemplos: Cafu fez três cirurgias (foi o médico quem as fez). O jogador operou o septo nasal (foi o médico dele que operou).
Embora já se tenha falado nessas construções sintáticas em trabalhos linguísticos sobre topicalização (como o livro de Eunice Pontes, Sujeito: da sintaxe ao discurso. São Paulo: Ática/INL, 1986) não me consta que exista algum estudo específico de psicolinguística exclusivamente sobre a hipálage.
É pena.


Doutor em Letras pela USP e leciona no Curso de Mestrado em Linguística da Universidade Federal do Espírito Santo.Hipálage
http://linguaportuguesa.uol.com.br/linguaportuguesa/gramatica-ortografia/21/hipalage-158412-1.asp

2 comentários:

Marieli 2° EMB disse...

As aulas dessa semana serviu para conhecer um pouco mais sobre cada um. Seus desejos, vontades e sonhos, e também nos fez perceber que nem sempre é fácil se colocar no lugar do outro! ADOREI ;)Marieli 2º EMB

tamires disse...

Essa semana fez eu me lembrar lá da 5ªserie , e me fez perceber é mais facil aprender portugues com a PIEDADE *--*
Que com ela a gente aprende ou a gente aprende !

Adoreiii =) Tamires Santana Borges 2°EM A